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Diário de uma...(Parte 2)

  • Foto do escritor: Amina Potter
    Amina Potter
  • 5 de mar. de 2025
  • 10 min de leitura

Atualizado: 24 de set. de 2025

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Texto publicado primeiramente na revista DESVIO, ISSN: 2526-0405.



Diário de uma carioca, ex-balzaquiana, divorciada, microbiologista e pesquisadora escrito com a jovem, solteira, paraense, papa xibé, artista


Parte 2


Rio de Janeiro, 02 de julho de 2023.


Querido Diário! Eu, a Amina cunhã, estou de volta para ajudar a Amina balzaquiana na faculdade. Ela anda meio azucrinada e quase não me deixou escrever este texto porque achou que esse negócio de diário não era mais novidade e que tinha perdido a graça. Eu choooro! (risos). Vou falar sim! Antes que ela leve o farelo na nota!


Acontece que a Mariana Pimentel, aquela professora da UERJ, é, novamente, professora da balzaqui este período e a disciplina da vez é Arte e Escritura. No início do período, a balzaqui e eu assistimos a palestra Oralitura e Pesquisa em Arte: aproximações entre escritas e arquivamento, ministrada pela professora Leda Maria Martins, na UERJ (2023). Ela já sabia que a professora Leda seria uma das autoras que estudaríamos com a Mariana e estava curiosa para ouvi-la. Logo no início da palestra cutuquei a balzaqui e disse: ei! O jeito dela te lembra quem? E ela respondeu rapidinho: Dona Izabel. Não sei se tu te alembras, Diário, mas Dona Izabel era minha avó materna. Canceriana, de aparência calma, mas de fala firme, assim como a professora Leda. A propósito, hoje, manhã de domingo, enquanto tomava meu café preto com tapioquinha, mamãe lembrou-me que vovó, se fosse viva, completaria 96 anos (Figura 1).



Figura 1. Dona Izabel e Amina cunhã, 1987. Fonte: acervo pessoal.
Figura 1. Dona Izabel e Amina cunhã, 1987. Fonte: acervo pessoal.

Mas, voltando para a palestra, o mesmo sentimento que me fazia ficar horas na cozinha, ouvindo vovó falar, enquanto cortávamos legumes, secávamos folhas-de-boldo, ou colhíamos acerola do quintal, nos fez ficarmos ali (a balzaqui e eu), ouvindo a professora Leda. Ela nos falou sobre como o repertório narrativo e poético, os modos de aprender e de figurar o real dos povos africanos e indígenas, foram deixados de lado na história brasileira. Leda foi nos mostrando que os locais de memória não se restringem à escrita e que essas memórias persistem até hoje, não em livros, mas em corpos, através da voz, dos gestos, das performances. Em seu texto Performances da oralitura: corpo lugar de memória, a professora traz o alerta de Pierre Nora que usa os termos lugar de memória e ambiente de memória para nos dizer que, para além de bibliotecas, museus, arquivos etc (lugares), as memórias do conhecimento também se recriam, se transmitem e se preservam pelos repertórios orais, corporais, pelos hábitos e rituais (ambientes) (Martins, 2003).


Já estava ótimo até aqui, a balzaqui gosta desse negócio de teoria, mas quando a professora Leda começou a falar das artes, ofícios e saberes africanos, o nosso estado fenoftaleína foi ativado e já sabemos que, quando isso acontece é que a coisa começa a ficar pai-d'égua! Percebi, aliás, que a ativação desse estado acontece muito quando euzinha chego. Acho que quando a balzaqui me vê pulando o muro altão que ela construiu em volta de si, fica mordida e a adrenalina explode, enchendo a nossa cara de placas vermelhas. Mas voltando ao que interessa: os ensinamentos da professora. Leda não é apenas professora e pesquisadora (como se fosse pouco), ela é também poetisa, ensaísta, dramaturga e rainha de Nossa Senhora das Mercês do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá, (rainha? bem que eu estava desconfiada!) (Martins, 2023). Era então sobre as vivências do seu reinado que ela nos falava.


Depois de terem sido arrastados violentamente para este continente, os saberes africanos transformaram-se para garantir sua sobrevivência e o Congado foi uma dessas transmutações que nasceu em território brasileiro, após a encruzilhada com as culturas indígenas e europeias. Nos Congados, existem ternos e guardas que performam, por exemplo, o mito da retirada da imagem de N. S. do Rosário das águas. Para além dos Congados, os Reinados são definidos por um simbolismo ainda mais complexo, que incluem muitos elementos e atos litúrgicos, que narram a instauração de um império, através de performances que reinterpretam as travessias dos negros até as Américas. Os Reinados e Congados fabulam uma concepção alternativa do tempo, celebrando seus antepassados através de um sistema religioso alterno performático (Martins, 2003 e 2023).


Em uma performance da oralidade, os gestos não são apenas narrativos ou descritivos, eles instituem e instauram a própria performance. Não são ordinários, mas sim provisórios e inaugurais. Mesmo quando se sustentam em tradições, as repetições nunca se oferecem da mesma maneira. Para Leda, o corpo em performance é local de inscrição de conhecimento, escrita no gesto, no movimento, na coreografia, nos adereços, na vocalidade. As performances, rituais, cerimônias e festejos são, portanto, ambientes de memória cuja expressão se dá no e pelo corpo. Sob esta perspectiva, para Leda não existem culturas ágrafas, pois nem todas as sociedades confinam seus saberes em lugares de memória, mas resguardam seus repertórios em práticas do corpo, em ambientes de memória (Martins, 2003 e 2023). Quando a palestra acabou, percebi a sorte que tivemos por termos sido apresentadas às oralituras por essa mulher. Eu olhei para a balzaqui, mas nem precisei falar nada porque ela também já estava sorrindo e lembrando das carimbozeiras Sereias do Mar e, claro, da mestra Mimi.


Conheci as batidas do curimbó, em Belém, ainda bem gitinha. Nessa época, vovó costurava minhas saias de chita e aprendíamos na escola o padrão identitário do carimbó, criado pelas classes de poder, baseado no mito do bom caboclo, e na presença das três raças. (índio, negro e branco), erro que ajudou a esconder, por muito tempo, a origem africana do carimbó. Mestra Mimi, infelizmente, eu conheci muito tempo depois, através das escrevivências de Sil-Lena Ribeiro Calderaro Oliveira (2018) e de Roberta Pinheiro Mendes (2021) depois da Mestra já ter encantado.


Mestra Mimi nasceu em 1927 (espia! Mesmo ano da Dona Izabel). Era Sereia. Não uma sereia de televisão, jovem e branca. Mestra Mimi, que fabulava suas próprias vivências, era sereia de verdade, de Vila Silva, em Marapanim, no nordeste do Pará, localidade onde o meu pai nasceu. Mas Mimi só virou Sereia em 1994 (aos 67 anos), quando a Creusa, um de seus onze filhos, decidiu que queria um carimbó no dia das mães e nenhum dos homens da vila quis se comprometer a tocar. Sem ninguém para tocar o curimbó e nem os outros instrumentos, Dona Mimi mandou as filhas reunirem quem quisesse cantar e tocar que ela mesma ia bater (tocar o curimbó). Curimbó é instrumento pesado, a palavra é formada por dois vocábulos da língua Tupi: curi, que significa pau ôco e m’bó, que significa escavado, que é um tronco largo, que conduz som e que se denominou carimbó. Cada uma foi experimentando um instrumento e assim nascia o grupo Sereias do Mar. O nome foi dado por Dona Maria Cistina, a guardiã das sementes da vila, que pensou em um nome que homenageasse Marapanim, que tem uma praia chamada Sereia (porque lá existem mesmo sereias que cantam) (Oliveira, 2018; Mendes, 2021).


Porém, antes de ser Sereia e mestra, Mimi era agricultora, mãe, benzedeira e parteira das boas. Foi ela quem aparou a maioria dos adultos de Vila Silva, que tem aproximadamente 150 famílias. Contou que, uma vez, a levaram até um hospital de uma cidade próxima para fazer um teste e ver se ela podia ser parteira e que, depois de responder a todas as perguntas, a dotôra disse: “dona Julia, eu estou pra aprender mais com a senhora do que a senhora comigo, tá acabado a reunião (risos)” (Oliveira, 2018). E assim, mestra Mimi continuou semeando a terra, criando, aparando menino e deixando os homens da vila ressabiados, vendo uma mulher bater carimbó.


O estado do Pará é o estado com o maior número de comunidades quilombolas (62), além de seis etnias indígenas (Mendes 2021). A prática do carimbó é conhecida desde o século XVII e, o seu nascimento deve ter ocorrido na região de Maranhãozinho, que fica entre Marapanim (PA) e São Luís (MA), mas é difícil precisar (Oliveira, 2018; Mendes, 2021). Essa foi uma região que sofreu grande ocupação jesuíta e por isso, até hoje, a maioria das comunidades são muito católicas, mas, assim como nos Congados e Reinados, no Carimbó, os saberes africanos também se transmutaram para sobrevier.


O carimbó era batido apenas por homens em uma época em que os negros escravizados não podiam exercer suas práticas religiosas. A prática do carimbó foi proibida por lei, no final do século XIX, mas resistiu. Então, esses homens batiam nos curimbós, num batuque ancestral, fabulando seu cotidiano de trabalho na roça e trocavam experiências com os indígenas sobre os espíritos encantados da natureza (Oliveira, 2018). Os homens vestiam calça branca de algodão e as mulheres blusa branca. As mulheres usavam ainda uma saia florida e uma flor nos cabelos (Mendes, 2021). Assim, como no samba, o papel da mulher no carimbó era limitado ao papel de dançarina, ou de organizadora do festejo e das comidas. Até que nasceram as Sereias do Mar, de mestra Mimi.


Roberta Pinheiro Mendes (2021) nos chama atenção para o fato de que não se faz carimbó com apenas um indivíduo, que é preciso que alguém toque o curimbó, que alguém marque no pau e que alguém toque o banjo (é o chamado Carimbó Pau e Corda). As Sereias do Mar são um grupo familiar. A seguir algumas das integrantes atuais (e seus instrumentos): Feliz (reco reco) e Nilce (milheiro), irmãs e cunhadas de Bigica; Bigica (cantora), Creusa (curimbó) e Martinha (milheiro), irmãs e filhas da mestra Mimi; Keyla (maracá), filha de Bigica; Cléo (curimbó); Ádria (meia Lua); Cristina (maracá) e Claudete (maracá), sendo essas últimas vizinhas da família.


Apesar da forte presença católica na vila, o carimbó também foi e é local de resistência de saberes e de religiões ancestrais africanas. Mestra Mimi estava sempre evocando seus guias: Repenacho, Largatinha, Bolotinha, Cobra Grande, Onça Grande e Borboleta Pará Parí (Mendes, 2021). “Com certeza, o carimbó, quando a gente se veste as pessoas já acham que a gente vai logo pra algum terreiro. Égua! Tá igual a uma macumbeira” (Dona Claudete) Também não são raros os relatos de mulheres do grupo que receberam músicas em sonhos, como Dona Bigica, ou comentários como “égua, Claudete, parece que tu te transformas, não és tu que tá dançando, (risos) parece que nem é tu” (colega de Dona Claudete). A maioria dos relatos que estou escrevendo aqui fazem parte do que Sil-Lena ouviu, no café da tarde, na casa de farinha e, claro, nas rodas de carimbó (Oliveira, 2018).


Percebi naquela palestra da professora Leda que carimbó é cultura oral e é também oralituras, que se expressam no cotidiano dessas mulheres, que fazem música até lavando roupa no igarapé. Foucault disse: “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual queremos nos apoderar” (Foucault, 1996, p. 10). Vila Silva é ainda uma sociedade profundamente machista, na qual os homens da família detém o poder das principais decisões da comunidade. Quando reuniram-se para bater o carimbó, as Sereias do Mar bateram também nas questões de gênero, pois se apoderaram de suas realidades, dos seus discursos, dando o ritmo para suas próprias vidas.


Conceição Evaristo parte de uma análise da literatura para concluir que, dependendo de onde parte a escrita, se revela muito sobre o trabalho (Evaristo, 2020). Muitas das músicas do grupo são composições das próprias Sereias. O grupo Sereias do Mar parte de uma escrita de mulheres racializadas, do interior do Pará, produtoras de cultura popular, tocadoras de carimbó. A carimbulação das Sereias abriu caminho para que as suas vozes fossem ouvidas, não só na Vila Silva, mas em toda a região. O primeiro grupo de Carimbó composto só por mulheres está cada vez mais forte. Já participou de inúmeros festivais regionais e já desaguou até aqui no Rio de Janeiro, em 2019 (Figura 2).



Figura 2. Grupo de carimbozeiras Sereias do Mar. Fonte: Brandão, 2023.
Figura 2. Grupo de carimbozeiras Sereias do Mar. Fonte: Brandão, 2023.

Em 1999, aos 73 anos, enquanto mestra Mimi tocava seu curimbó, Dona Izabel já não costurava minhas saias floridas. Também não conseguia mais colher as acerolas e nem fazer o chá de boldo que acalmava meu estômago, quando eu exagerava no açaí, mas ela ainda assistia, diariamente, as suas novelas. Ela não quis ir para o hospital. Quis ficar em casa. Um dia, ela acordou de madrugada e pediu para tomar café da manhã. Almoçou antes das dez horas e disse para minha tia que não daria tempo de ver a novela. Entendemos. Chamamos a família e os amigos. A casa ficou cheia. Neste dia, nossa cadela barulhenta sumiu e eu só fui achar a danada no dia seguinte, escondida debaixo da minha cama. No fim do dia, antes da novela começar, Vovó fechou os olhos pela última vez.


Em 2020, aos 92 anos, mestra Mimi já não batia mais seu curimbó, mas repetia os movimentos do toque no tambor nas pernas e passava o dia cantarolando baixinho. Um dia, já bem doente, a Sereia pediu para cantar e passar alguns minutos perto das plantas. Antes de anoitecer, Mimi encantou. Toda a Vila Silva estava presente na despedida à Mimi. Seus filhos homens, muito católicos, não permitiram que as mulheres batessem o carimbó durante a cerimônia, mesmo tendo sido o último desejo da mestra. Mas, como diz a fotógrafa Amanda Rabelo, “quem se encanta com o carimbó, encantada é”. Durante o cortejo fúnebre, liderado por mulheres, surgiu um curimbó e um par de maracás, trazidos pela comunidade (ou pelos espíritos da floresta, vai saber!). (Mendes, 2021). Assim, vozes femininas afinadas puderam cantar coros de igreja e carimbós para que Mimi se fosse feliz.


Eu acredito que fabulamos para nos proteger. Não para fugirmos da realidade, mas porque quando fabulamos, os mecanismos que nos causam medo perdem o acesso a nós. Porque quando fabulamos, nos protegemos. Mas não como se vestíssemos uma armadura. Nos protegemos como se voltássemos para o útero, de onde só saímos se for para sermos aparados por uma Sereia.


REFERÊNCIAS


BRANDÃO, R.; CASTRO, M. R. N. As carimbozeiras Sereias do Mar de Vila Silva: um

percurso fotoetnográfico. Fotografia digital. Novos Olhares, São Paulo, v. 12, n. 1, p. 117-

138, jan. 2023. Semestral. Disponível em:

<https://www.revistas.usp.br/novosolhares/article/view/197975/194426>. Acesso em: 18

jan. 2024.



EVARISTO, C. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, C. L.; NUNES, I. R. (org.).

Escrevivência: a escrita de nós. Reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de

Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020.


MARTINS, L. Oralitura e Pesquisa em Arte: aproximações entre escritas e arquivamento.

2023. Palestra. YouTube PPGArtes UERJ. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=DzvAvJNyY8s&t=3997s>. Acesso em: 10 mar. 2024.


MARTINS, L. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Letras, 26, p. 63-81,

2003.


MENDES, R. P. Feminino pau e corda na amazônia: as sereias de Vila Silva tocadoras de

carimbó, 94 f. Dissertação (Mestrado) - Ciências da Comunicação, Universidade Federal

do Pará, Belém, 2021.


NHAMANDU, S. O nascimento da fábula. Vídeoperformance. YouTube Sue Nhamandu.

Disponível em: <https://youtu.be/y8RJZOJzzSI?si=je6jQ_3og1mYaiIU>. Acesso em: 10

fev de 2023.


NHAMANDU, S. Para deglutir Foucault com dendê e mandioca: oneirois de michel nos

delírios tropicais. Revista Tapuia: Ontologias libertárias, antifascismos e

contrassexualidades, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 109-140, 03 ago. 2023. Disponível em:

<https://revistatapuia.com.br/ojs/index.php/revista/article/view/30>. Acesso em: 18 jan.

2024.


OLIVEIRA, S. L. R. C. Antes que o tempo passe tudo a raso: tambores matriarcais do

grupo de Carimbó Sereia do Mar da Vila Silva em Marapanim, no Pará, 173 f. Dissertação

(Mestrado) - Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.


SEREIAS DO MAR. Vila Silva, Pará. Instagram Sereias do mar carimbo. Disponível em:

<https://www.instagram.com/sereiadomarcarimbo/>. Acesso em 02 jul. 2023.




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