Diário de uma...(Parte 1)
- Amina Potter

- 28 de nov. de 2024
- 10 min de leitura
Atualizado: 12 de dez. de 2024
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Texto publicado primeiramente na revista DESVIO, ISSN: 2526-0405.
Diário de uma carioca, ex-balzaquiana, divorciada, microbiologista e pesquisadora escrito com a jovem, solteira, paraense, papa xibé, artista
Parte 1
Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 2023.
Querido diário (ainda é assim que se começa isso?), voltei para te contar o que essa balzaquiana traumatizada anda fazendo depois desses 25 anos de silêncio. Entre graduação, mestrado e doutorado, foram mais de dez anos envolvida com pesquisas na área de microbiologia, mais especificamente genética de microrganismos e o fato é que era muito bom pesquisar. Mas, com o tempo, a falta de verbas e vendo os caminhos que tomaram os espíritos que habitavam o ambiente daquela academia tudo começou a me incomodar. Incomodar só não! Começou a me doer mesmo! Não era mais aquilo que eu queria! Porém, para que você entenda o porquê de eu ter voltado a escrever para você, vou precisar fazer um breve resumo da minha vida, porque selado que você já tinha esquecido de mim.
Apesar de ter nascido em terras cariocas, fui morar com a família materna em Belém do Pará e lá passei praticamente toda a minha infância e adolescência. Só retornei para o “Hell” de Janeiro (não me entenda mal, eu adoro um “Hell”) quando tinha 19 anos e após uma breve passagem pela faculdade de Engenharia (não julgue), acabei seguindo carreira acadêmica na microbiologia, mas como eu disse antes: Não era mais aquilo que eu queria!
Dizem que o sofrimento inspira. Eu confesso que sempre achei isso uma breguice enorme, mas a verdade é que euzinha sou a personificação da breguice. Quem canta “Menina Veneno” em todo Karaokê que vai, merece perdão? Assim, voltei para o “Hell” depois de três meses morando em Brasília e tomei o baque de perceber que meu casamento tinha ido para o saco (no mau sentido mesmo). Foi nesse cenário que peguei um lápis pela primeira vez, após mais de dez anos e desenhei uma rosa solitária dentro de um vaso. Eu sei. Breeeega! O que interessa é que este desenho acendeu a fagulha. O casamento acabou, mas eu, a Amina jovem de Belém do Pará que dançava, desenhava, pintava, tocava piano estava de volta para acolher a Amina balzaquiana, doutora, cheia de razão e esvaziada de colágeno, que tava dormindo no sofá-cama do escritório da casa da mãe. E foi assim (bem resumidamente), que eu vim parar no segundo período do curso de Bacharelado em História da Arte na UERJ, mais precisamente na aula de Teoria da Arte (não, Estética não!) da Mariana Rodrigues Pimentel. A Mariana passou para a turma a missão que eu vou tentar cumprir aqui. Então já vou logo te avisar que eu tô escrevendo para você, mas que, pelo menos, mais que tu não serás o único a saber dessa história. (Sem drama, tá? A época de escrever em códigos para que ninguém pudesse ler meus segredos de moleca varejeira já passou. A balzaquiana precisa da nota).
Na primeira aula, a Mariana nos falou um pouco sobre a disciplina e eu confesso que já fiquei aperreada porque minha experiência com Filosofia era (ainda é) gitinha. O pouco que eu sei resume-se a uma disciplina de primeiro período que eu cheguei a cursar em uma turma de calouros de Artes em 2001, na PUC-Rio, e a algumas conversas de bar com amigos filósofos (de bar ou não). Por isso, tenho consciência de que me falta teoria para entender a fundo do que se trata a disciplina de Teoria. Sim, eu continuo ruim nos trocadilhos. Mas a Mariana disse também que não precisávamos entender absolutamente tudo e que era para deixar fluir. Que poderiam se passar anos, mas que em algum momento, aquilo que foi dito ali faria sentido. Entreguei para as deusas. Falando em entregar às deusas, eu estou aqui fazendo este texto em forma de relato, com o umidificador lotado de óleo de ylang-ylang, num esforço de ativar minha Kundalini e fugir do vício da balzaquiana de escrever de forma acadêmico descritiva, mas uma hora ou outra é claro que ela dá o ar da graça.
As aulas começaram e um dos primeiros textos que lemos foi um artigo que ainda não estava publicado, de Sue Nhamandu: “Para deglutir Foucault com dendê e mandioca, Oneirois de Michel nos delírios tropicais”. “Quem?”, “Como?”,“Onde?”. Sentindo-me uma pomba-lesa, li as três primeiras páginas do texto umas oito vezes (não ri!) sem conseguir entender do que se tratava. A professora já havia dito na primeira aula que estudaríamos Fabulação. Égua! Eu não estava preparada para aquilo! Foi neste dia que eu comecei a ter as sensações mais loucas e olha que a Sue nem serviu vinho de jurema para os alunes (infelizmente).
O texto é uma Fabulação filosófica escrita em português, mas também em tupi, iorubá, latim, francês e (até) inglês, que transporta Michel Foucault para uma sociedade matriarcal indígena, na qual ele inicialmente é escravo sexual das amazonas. Após toda sua vivência e simbiose com aquela sociedade e natureza, ao final, ele deseja ser (tornar-se) mulher. É claro que esta descrição está muito distante de tudo que a Sue nos traz nesse texto (eu mesma não devo ter absorvido nem metade), mas eu só queria mesmo introduzir o tema: Fabulação.
Não sei até agora se entendi ou, ao menos, comecei a entender exatamente do que se trata, mas vou me esforçar para não parecer lesada. Para o nosso dicionário, fabular significa “apresentar em forma de ficção, ou fábula; inventar”. Segundo nossa professora de Teoria da Arte, o conceito de função fabuladora foi inicialmente criado e manejado pelo filósofo Henri Bergson, no livro “As duas fontes da Moral e da religião”, publicado em 1932. Bom, então fabular se trata de inventar? Durante as aulas eu fui me dando conta de que fabular não era exatamente sobre inventar no sentido de contar uma potoca. Entendi que fabular está mais para recontar algo de forma diferente ou ainda contar algo a partir de novas realidades ou novos deveris que podem, ou não, serem fatos, mas que, com certeza, não são mentiras. Me peguei pensando: por que fabular? Para quê fabular?
As aulas continuaram e dois conceitos estavam sendo introduzidos: o de Fabulação crítica e o de Fabulação especulativa. Saidiya Hartman é uma escritora e acadêmica estadunidense interessada por literatura e história cultural afro-americana, escravidão, estudos de gênero, estudos da performance, entre outras coisas. Em uma das suas obras, a autora traz uma narrativa de enfrentamento da violência do arquivo. Hartman faz questão de dizer que todas as personagens e os eventos apresentados no livro “Vidas Rebeldes, Belos Experimentos” são reais, que nada foi inventado. Então por que mesmo assim o que ela faz é Fabulação crítica? Hartman fabula ao criar uma “contranarrativa livre dos julgamentos e das classificações que submeteram jovens negras à vigilância, punição e confinamento” (Saidiya Hartman). O objetivo é dar voz a essas meninas, “experimentar o mundo como essas jovens fizeram, aprender com aquilo que elas sabiam”. Afinal, ficcionar é sobre contar histórias para que estas novas histórias mudem a realidade. Para que não apenas o caráter violento e triste da vida dessas mulheres seja arma de enfrentamento, mas para mostrar como a alegria, o prazer e a coragem foram e podem continuar sendo veículos de uma revolução. Já não há mais uma verdade a ser revelada por um modelo narrativo, mas efeitos da verdade a serem criados pela potência falsificante da Fabulação. Ou seja, modificar a percepção do objeto, modificando também a ação sobre ele.
A tarefa que a Mariana nos passou é a de trazer uma obra que esteja em consonância com esses conceitos, mas para fazer isso, vou voltar ao texto da Sue. Lembro que enquanto eu lia, meu entendimento sobre Fabulação era ainda menor do que agora. Ainda assim, ele foi capaz de me fazer entrar no meu “estado fenolftaleína”. Calma que eu vou explicar. O que eu chamo de “estado fenolftaleína” é uma característica minha que é um verdadeiro mundéu. Sempre que minha adrenalina sobe, eu fico vermelha, assim como esse indicador sintético de pH básico usado em laboratório. Não subestime o fenômeno! Não se trata apenas de uma bochecha rosada. Eu fico com placas vermelhas enormes pelo corpo, principalmente na região do rosto, pescoço e colo. Isso também acontece se eu tiver um choque de temperatura. Ou seja, eu posso estar com raiva, feliz, com frio, com calor, gozando ou tendo uma epifania que qualquer pessoa vai ver que estou afetada (mundéu). O que importa é que, enquanto eu lia o texto, ia sentindo meu corpo aquecer e percebi (não tem muito tempo) que quanto mais meu pescoço queimava, mais a Fabulação cumpria sua função.
O texto da Sue me afetou não apenas por ter sido o primeiro que eu li no curso, mas porque ele era sobre realidades e/ ou ficções que tinham tudo a ver com esta Amina aqui, jovem em Belém do Pará. Eu tenho uma ascendência indígena muito forte, e apesar de ter sofrido um imenso apagamento cultural, nem tudo “eles” conseguiram apagar. Esse mundo das Icamiabas fabulado pela Sue, assim como todos os deveris feministas, me afetam no melhor sentido da palavra. Lembrei de como minha infância foi habitada quase que totalmente por mulheres, já que na minha casa morávamos minha avó, minha mãe, duas tias e eu. Lembrei da minha prima brincando comigo no chão do quintal com manguinhas verdes e palitos. Lembrei das mulheres da minha família reunidas cuidando dos cabelos umas das outras. Lembrei dos chás que minha avó fazia com as plantas que ela mesmo cultivava. Lembrei do cheiro do óleo-de-copaíba nos meus machucados. Lembrei da imersão tântrica que fiz há 4 anos, enquanto assistíamos a vídeo performance “O nascimento da fábula”, da própria Sue. Talvez eu ainda não tenha a base teórica filosófica que eu gostaria para compreender melhor o texto dessa artista, mas minhas vivências me ajudaram a entender o porquê de todo o autoquestionamento de Foucault quando foi viver com as amazonas.
E aí chegamos a obra que preciso trazer. Sabe do que mais eu me lembrei lendo a Sue? Da “Sheiloca”! “Sheiloca” é um quadrinho que foi publicado inicialmente no “Instagram” e que, depois acabou sendo impresso. Eu conheci o início da história em 2019, quando eu seguia o perfil da autora, Lovelove6 (Gabriela Masson), mas só li toda a história em 2020. Lovelove6 não sabe, mas me ajudou a lidar com a pandemia de Covid19. Como a própria autora descreve, “Sheiloca” é uma distopia feminista. Desde a arte gráfica da forma dos corpos das mulheres até as existências imaginadas expõem as fragilidades da nossa sociedade machista capitalista (Figura 1). A história acontece em uma sociedade comunal feminina, de hábitos noturnos, onde o sexo masculino teria sido extinto. As doulas cuidam das comunas, cada mulher possui uma mana de soror e a reprodução acontece através de ovos. Apesar da sociedade, aparentemente, não ter mais o sexo masculino e as dores que ele representa, nem todas estão satisfeitas.

Sheiloca se depila, quer parir e se vangloria frente as outras manas de encher uma lua inteira. Por acaso, ou não, já enchi umas duas luas enquanto escrevo este texto (#pirasheiloca). Lovelove6 ficciona criticamente por reflexionar sobre o que mulheres esperam de mulheres.
Mas e a tal da Fabulação especulativa? Eu já estava cheia de pavulagem, crente que estava começando a entender de Fabulação quando a artista Cecilia Cavalieri, convidada pela Mariana, foi até a UERJ e nos apresentou sua produção articulada com a produção de Donna Haraway. Essa mulher não fica satisfeita apenas em fabular. Ela fabula com ciência. Comecei a ler “O manifesto das espécies companheiras” e “Quando as espécies se encontram” também já está comprado. Cecilia nos falou sobre sua Tese intitulada “Notas metafísico-metabólicas de uma experiência mamífera”, um trabalho sobre leite materno, que nasceu a partir de sua vivência como lactante. Ela própria define o texto, que foi todo escrito em nota de rodapé, como “uma tese de baixos estudos”. Se foi Cecilia quem me inspirou a escrever este texto neste formato? Óbvio que sim!
A aula teve vários pontos que me interessaram. Desde como a “livre demanda” abre uma fratura na estrutura capitalista, passando pela satisfação (incredulidade) de uma mãe capaz de produzir cem por cento de todo o alimento que sua cria precisa, até toda a pressão emocional de uma puérpera e a carga mental materna e, por isso, eterna. A Tese traz ainda uma parte da produção artística da Cecília durante esse período (não que o texto também não fosse arte). Lembro-me de livros atravessados por um cabo de vassoura.
A esta altura da aula eu já sentia o calor subindo forte, mas foi quando ela começou a falar dos coloides e de como moléculas sinalizadoras da saliva do bebê são capazes de regular a quantidade de proteína no leite, que eu percebi: o “estado fenoftaleína” estava ativado. Ciência? Eu entendo um pouco disso (pensei) e na hora lembrei que a balzaquiana é, de fato, microbiologista. Comecei a “viajar” lembrando das bacteriocinas da minha Tese (proteínas produzidas por bactérias que matam outras bactérias) e imaginei que, talvez, elas pudessem me ajudar a ficcionar sobre tantas coisas... Será? E o DNA? Quem sabe sua estrutura de dupla-hélice cheia de códigos poderia ser agente de “tradução” não apenas no sentido 5’ → 3’, mas na direção do que eu quisesse contar? Enfim, a viagem foi muito grande e até agora eu não consegui organizar muito bem esses pensamentos. Vou precisar ler mais Donna Haraway. Ainda bem que, segundo Platão, os simulacros são, por definição, livres de julgamento, já que eles não têm a ver com verdade.
Bom, querido Diário, por enquanto, eu vou precisar parar por aqui. A professora tinha pedido um texto que tivesse entre três e cinco páginas e a balzaquiana não vai gostar se eu ousar tanto assim. Se bem que eu poderia, né? Ninguém mandou a Mariana ativar meu “estado fenoftaleína”.
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola Editora; p. 10, 1996.
CAVALIERI, Cecilia. Notas metafísico-metabólicas de uma experiência mamífera. 2022. Tese (Doutorado) - Curso de Doutorado em Artes Visuais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2022.
HARAWAY, Donna. O manifesto das espécies companheiras: cachorros, pessoas e alteridade significativa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021. 184 p. Tradução de: Pê Moreira.
HARTMAN, Saidiya. Vidas Rebeldes, Belos Experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo, 2022. 432 p. Tradução de: Floresta.
LOVELOVE6. Sheiloca. 2019. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/627126636/SHEILOCA-Lovelove6>. Acesso em: 18 de jan 2024.
NHAMANDU, Sue. Para deglutir Foucault com dendê e mandioca: oneirois de michel nos delírios tropicais. Revista Tapuia: Ontologias libertárias, antifascismos e contrassexualidades, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 109-140, 03 ago. 2023. Disponível em: <https://revistatapuia.com.br/ojs/index.php/revista/article/view/30>. Acesso em: 18 jan. 2024.
NHAMANDU, Sue. O nascimento da fábula. YouTube, 21 de out. de 2021. Disponível em: <https://youtu.be/y8RJZOJzzSI?si=je6jQ_3og1mYaiIU>. Acesso em: 10 fev de 2023.

Parabéns, pelo texto! Tive que ler mais de 1 vez para entender alguns pontos rs